
Por Ègbón Álábojí
Em um tempo tão distante, que só as sombras despertavam a memória…
Foi no alto do morro de Pernambuco, o céu faiscava como brasa viva.
Eu e Mãe Veia subimos devagarinho o morro, levando o inhame assado, embrulhado na folha de bananeira, para arriar para Ogun.
O vento soprava fino, e o mar do Pontal parecia respirar junto com a noite.
Foi quando Mãe Veia parou!
Firmou o pé no chão, ajeitou o pano da cabeça e falou num tom que não era só dela — era das antigas:
— Meu fío… era o ano em que elegeram o primeiro prefeito de Ilhéus, o Doutorzinho Artur Leite.
Reinava no Pontal a grande senhora Malugo Mônaco…
Mulher de fundamento, de fibra, de peso e medida. Uma Yalorixá que sabia ouvir o vento antes dele soprar…
Malugo Mônaco, levantou as mãos para o céu e apontou para lua, o ilá de Ogun foi ouvido do Pontal ao Grauçá.
De repente, a lua começou a sumir.
Foi ficando vermelha… vermelha… vermelha…
Parecia banhada em sangue.
Mãe Veia suspirou fundo:
— Os mais velhos nos ensinaram que quando a lua se veste como Ogun, de sangue e marió, , meu fío, não é o céu que muda…
*É o destino dos homens que se mexe.*
O silêncio ficou pesado.
— Nesse tempo, os caminhos estavam embolados:
Gente mentindo pra si mesma.
Relação já morta fingindo estar viva.
Promessa sem verdade.
E quando a lua se fechou, quem abriu foi ele…
Exu bateu com o agó, seu porrete fálico nas nuvens, e as nuvens se abriram.
— Porque nada começa sem Exu, e nada termina sem a presença dele. 1950 foi um ano é de começo e Exu vinha na frente, varrendo a mentira, escancarando o segredo, virando mesa de quem se esconde sob uma máscara de papé fino (logo se rasga).
O mar batia mais forte lá embaixo.
No pé do morro, abriando a mata, Oxóssi mirava longe e, Ogun afiava seu facão de ferro.
Ela olhou pra mim como quem entrega um segredo:
— Esse ano é flecha lançada sem volta.
A lua parecia pulsar.
— Oxóssi rege quando o homem precisa caçar, precisa mirar e não errar, precisa acertar o alvo para não passar fome.
Não dá mais pra viver atirando pra todo lado.
Assunte só meu fió :
” *_Quem não escolhe_ _caminho vira caça_*”
Ela então, fez um gesto rápido como se puxasse um arco invisível e disparasse uma única flecha.
— E Ogun… ah! Ogun não conversa muito.
Ele corta.
Corta relação podre.
Corta medo antigo.
Corta ilusão que a pessoa insiste em carregar.
O vento mudou de direção.
— Mas não pense que a guerra é só espada.
Banhando-se na nascente do morro, num veio cristalino de água doce, está Oxum, Apará, a mãe guerreira.
A que vence com estratégia.
A que sorri enquanto desmonta o inimigo por dentro.
A que vence a guerra com o coração.
A que batalha com as emoções.
*Oxum!*
A lua então desapareceu quase toda.
— Quando a lua fica vermelha assim — disse ela — é o Odu soprando.
*É Ògúndá batendo tambor.*
Guerra que explode lá, aqui e acolá.
*Verdade que dói, mas endireita.*
Mãe Velha se ajoelhou e colocou o inhame na terra, debruçou epô sobre as bandas e bateu paó
A noite silenciou no tempo.
— Hoje, 03 de março de 2026, outro portal se abre sobre a baía do Pontal.
*Nova lua de sangue.*
‘ Escarlate ‘
Brilhante, misteriosa, anunciando novos começos.
— Nesse ano:
Quem estiver escondendo verdade vai ser revelado.
Quem estiver adiando decisão vai ser empurrado.
Quem tiver medo de mudar vai sentir o chão tremer.
O céu começou a clarear de leve.
Porque Exu já passou
Oxóssi já mirou o alvo
Ogun já afiou o facão
Oxum Apará soprou pó de igbin, nas três direções
Tornei a lembrar de Mãe Veia, aconselhando daquele jeito de quem mistura mel e fogo:
— Meu fío… nada explode.
Mas tudo fica claro.
E quando tudo fica claro…
não tem mais como fingir que não viu.
Era uma lua Escarlate no Céu.
Ilhéus-BA., 03 de março de 2026.





