Flagrei - A resistência verde que virou alento no coração da Princesa
No pulsar apressado do Centro de Feira de Santana, a Princesa do Sertão, a dureza do asfalto encontrou um momento de inesperada ternura. Diz a sabedoria popular, em tom de advertência, que “mandacaru não dá nem encosto nem sombra”, evocando a imagem de uma planta espinhosa e hostil.
Entretanto, a lente atenta de Luiz Tito – Digai Feira capturou o exato instante em que a arte urbana subverte a botânica e o preconceito. Entre traços de tinta e a poeira da calçada, um trabalhador de limpeza urbana, vestindo seu laranja vibrante, curvou-se para encontrar um repouso improvável no desenho de um cacto. Não era apenas um encosto físico, mas um diálogo silencioso entre quem cuida da cidade e a imagem daquilo que melhor define a resiliência do povo sertanejo.
O contraste de espinhos e cores
O registro é um poema visual que desafia a lógica dos ditados. O mandacaru, mesmo em sua versão pintada no muro, ofereceu o suporte que o cansaço exigia, provando que a arte tem o poder de suavizar as quinas da realidade e transformar o concreto em consolo. Ali, onde o sol não perdoa e a lida é bruta, o trabalhador e o cacto se fundiram em uma única silhueta de resistência.
É a prova viva de que, no sertão — seja ele geográfico ou de alma —, até o que parece ser feito de espinhos pode carregar a doçura de um breve descanso sob o céu da Bahia.
Foto: Luiz Tito





