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Entre princípios e pragmatismo – o dilema das alianças partidárias no Brasil: o caso Partido Novo na Bahia

*Por Professor Carlos Alberto

No cenário político brasileiro, salvo melhor juízo, defender o que se denomina como normas fundamentais, valores ou preceitos universais que guiam o comportamento, o pensamento e a interpretação de sistemas – ou melhor – defender princípios, têm sido, muitas vezes, mais simples no discurso do que na prática. Na Bahia, por exemplo, a aliança entre União Brasil e Partido Novo ilustra bem isso.

Nascido como uma alternativa ao que seus fundadores chamavam de “velha política”, o Partido Novo (NOVO) é um partido político brasileiro de direita fundado em 2011 e registrado oficialmente em 2015, que construiu sua identidade com base em valores como austeridade, ética e independência em relação ao Estado. Como resultado das últimas eleições (2024), segundo o próprio site da legenda, o Partido Novo conta com “335 mandatários”, sendo 1 governador, 1 vice-governador, 1 senador, 4 deputados federais, 7 deputados estaduais, 19 prefeitos, 39 vice-prefeitos e 263 vereadores pelo Brasil.

Já União Brasil é o resultado da fusão entre DEM e PSL, e reúne uma ampla gama de correntes políticas que, muitas vezes, com práticas mais tradicionais de articulação partidária, tem se guiado por alianças pragmáticas e negociações eleitorais. De acordo com o site do partido, a legenda está assim representada no Brasil: 1 deputado Distrital, 103 deputados estaduais, 59 deputados federais, 4 governadores, 1 vice-governador, 583 prefeitos, 507 vice-prefeitos, 7 senadores e 5490 vereadores.

No entanto, à medida que o jogo eleitoral se impõe – especialmente em contextos regionais como o da Bahia -, a necessidade de alianças parece desafiar a identidade do Novo. Refiro-me a aproximação do Partido com o União Brasil, legenda com forte presença política é verdade, mas com práticas mais tradicionais e que levanta uma questão inevitável: até que ponto o pragmatismo eleitoral compromete os princípios fundadores de um partido político no Brasil?

No Brasil, é de conhecimento público que as alianças partidárias não são apenas comuns, elas são estruturais. O sistema político, baseado em múltiplos partidos e eleições proporcionais, incentiva coalizões para garantir, entre outras coisas, tempo de televisão, capilaridade eleitoral e viabilidade de candidaturas e isso, por vez, faz com que a pureza ideológica frequentemente ceda espaço à estratégia, ou estratégias.

Quando partidos políticos surgem e se apresentam como renovadores, e na sequência se associam a práticas ou grupos que historicamente criticaram, corre-se o risco, no mínimo, de diluir a identidade desta nova agremiação partidária – pra não dizer de outra maneira. Do lado de cá, ou seja, do eleitor, isso pode soar como incoerência – ou, em outras palavras, como adaptação excessiva às regras do jogo para defender interesses próprios, não do eleitor.

Nesta terça-feira (7), a manchete do site https://jornalgrandebahia.com.br/ destacava “Novo e União Brasil anunciam aliança na Bahia com foco nas eleições de 2026”. No corpo da matéria está escrito que “lideranças políticas do Partido Novo e do União Brasil anunciam a formalização de uma aliança estratégica na Bahia, inserida no projeto político denominado ‘União pela Bahia’, com foco direto na reorganização das forças oposicionistas para as eleições de 2026”.

Diante desse contexto, emerge uma segunda pergunta: dá pra levar a sério quem se diz novo e se alia ao velho? Embora a resposta não pareça tão simples, neste caso, é possível lembrar ao leitor que o Partido Novo na Bahia é comandado por ninguém menos que o ex-deputado federal José Carlos Aleluia cuja origem partidária vem do
PFL (1990-2007), DEM (2007-2022), UNIÃO (2022-2025) e NOVO (2025-presente), ou seja, nada de tão novo assim, exceto o partido.

Quem acompanha o mínimo da política partidária no Brasil sabe, por um lado, que governar (ou mesmo competir) exige articulações e alianças das mais variadas. No entanto, a credibilidade política em casos como o do Partido Novo na Bahia (que se alia ao União Brasil), depende – ou deveria depender, melhor dizendo – justamente da coerência entre o discurso e a prática.

Quiçá, o ponto central de tudo isso até nem seja a existência de alianças partidárias em si, mas os termos em que estas ocorrem. Ao eleitor, que se torna cada dia mais atento, diria que este é capaz de perceber que há diferenças entre composições baseadas em programas e compromissos claros com a sociedade e aquelas que são guiadas apenas por conveniência eleitoral.

No fim, ante o exposto, o desafio de partidos como o “NOVO” é provar que é possível participar do sistema político brasileiro sem se tornar refém dele. Caso contrário, – assim como outros partidos existentes ou que venham a surgir -, corre o risco de deixar de ser uma alternativa ao eleitor e ao Brasil e passar a ser tão somente mais uma peça no tabuleiro daquilo que prometia transformar.

FSA-BA, 10/04/2026

* Carlos Alberto- professor, radialista e mestre de cerimônias

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