André Pomponet*
Todos os detalhes técnicos da estreia da Seleção Brasileira já foram esmiuçados em detalhes infinitesimais. Ações, reações, posturas, posições, tudo foi esquadrinhado, medido, pesado e – sobretudo – analisado com hipérboles, eufemismos e mil outras figuras de linguagem que só os iniciados no estudo do idioma podem elencar. Muito do que foi dito – particularmente o exagero, o teatral – serviu para estimular o engajamento nas redes, como já é praxe.
Quem pretende, como retardatário, enxergar detalhes técnicos, observar o que escapou à primeira vista corre o risco de ser, solenemente, ignorado. Pior: ser visto com fastio. Afinal, foram míseros 90 minutos de peleja para justificar milhares (milhões?) de horas de comentários, opiniões e palpites, dos mais rasteiros e dispensáveis – a maioria absoluta – até aqueles efetivamente abalizados, esclarecedores.
Mas, mesmo assim, arrisco-me a uma observação que envereda pela conflagrada fronteira entre futebol e política no Brasil. Vi, nos dias que antecederam a Copa do Mundo, muita gente perder o medo de ostentar o verde-e-amarelo e curtir a Seleção Brasileira sem aquele receio do estigma, da associação com a turma que semeou o ódio e que se apropriou de um dos símbolos nacionais.
Até pouco mais de uma década atrás era assim: quando chegava o ano par que anunciava a Copa do Mundo, o povo pintava as ruas, os muros, a cara, o corpo, até os animais de estimação com o verde-amarelo símbolo do melhor futebol do mundo. Havia alegria autêntica. No Nordeste, particularmente, as festas eram potencializadas pelas celebrações juninas.
Depois que o ódio se disseminou e a extrema-direita se apropriou dos símbolos nacionais, o brasileiro médio se retraiu, assustado com a estridência dos trogloditas. Este ano, pelo jeito, trouxe uma salutar resgate de um passado que era muito mais harmonioso. Mesmo com o time não correspondendo tanto, mesmo com o ódio ainda na atmosfera. Não, nada se converteu em um mar de rosas, longe disso.
Mas, pelo menos, retomou-se o direito de torcer pela Seleção Brasileira sem os sustos de há pouco tempo, sem os temores e os receios de um período de ódio e intolerância que, se nada der errado, ficará no passado…
* André Pomponet é jornalista, economista e atua na TVU
Foto e arte: Luiz Tito



