André Pomponet*
Nos funestos anos de pandemia e do desgoverno de Jair Bolsonaro finalmente li Charles Bukowski. Poeta, romancista e contista, o festejado escritor norte-americano – nascido na Alemanha – oferece em sua obra uma visão pouco badalada sobre os Estados Unidos: a do seu mercado de trabalho. O autor foca particularmente a realidade que envolve os trabalhadores braçais, menos qualificados e que vivem às voltas com a precariedade, o subemprego e o desemprego.
Romances como “Cartas na Rua”, “Factotum” e “Misto-Quente” traçam um cenário desalentador sobre a realidade do trabalho. Aquela que o autor viveu e romanceou em suas obras. Salários irrisórios, longas jornadas de trabalho e direitos escassos constituíam a realidade de quem dispunha apenas da própria força de trabalho para viver.
Bukowski atravessou como trabalhador anônimo uma época turbulenta. Chegou ao mercado de trabalho pouco antes da Segunda Guerra e, nas décadas seguintes, alternou fases de bebedeira com incursões por trabalhos mal-remunerados e degradantes. Havia ampla flexibilidade no entra-e-sai das empresas, o que tornava tudo muito mais precário para o trabalhador.
Quase um século depois, pretendem importar o modelo para o Brasil. Em 2018 promoveram uma “modernização” da legislação trabalhista, que apenas tornou mais precária a situação de quem trabalha. Agora, para piorar, Flávio Bolsonaro, o baby do “mito”, pretende adotar o esquema de pagamento por hora trabalhada.
A arapuca foi oferecida embalada em excelentes intenções: trabalhadores e patrões poderão negociar livremente, sobretudo para que os trabalhadores ajustem as jornadas às suas necessidades. Por exemplo: mães que não podem encarar períodos integrais terão toda a liberdade para sinalizar a potenciais empregadores sua disponibilidade e, assim, otimizar oferta e demanda.
Um cenário com mercado de trabalho perfeitamente equilibrado assim só existe como abstração teórica, em manuais para calouros de economia. Não é preciso pesquisar tanto para se descobrir como vivem – por exemplo – os trabalhadores norte-americanos que labutam sob o regime de pagamento por hora trabalhada. E note-se que, lá, a sociedade é bem menos desigual e mais rica que a brasileira.
Nos últimos anos credulidade se tornou artigo fácil no Brasil. Esticando-a ao limite, estão aí os mercadores da fé, que foram sucedidos pelos apelos à riqueza fácil de pirâmides e, mais recentemente, de bets. Agora é a vez do mercado de trabalho sem regulamentação como atalho à riqueza e à prosperidade.
André Pomponet* é jornalista, economista e atua na TVU



