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Título de cidadão ou homenagem política? Quando a política fala mais alto

*Por Professor Carlos Alberto

Receber o título de cidadão de uma cidade deveria ser motivo de orgulho. Afinal, é uma forma de dizer a alguém que, mesmo tendo nascido em outro lugar, sua história, seu trabalho ou suas contribuições conquistaram um espaço na vida daquela comunidade. Mas será que toda homenagem concedida pelas câmaras municipais representa, de fato, esse reconhecimento? Ou, em alguns casos, a política acaba falando mais alto do que os serviços prestados pelo homenageado à população?

Essas são algumas reflexões que ganham força diante dos episódios envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em Salvador e Feira de Santana. Nos dois municípios baianos, propostas de concessão de títulos de cidadão ao parlamentar levantaram uma questão que merece ser discutida sem paixões partidárias: o que alguém precisa fazer por uma cidade para merecer ser reconhecido como parte dela?

SALVADOR: ENTRE A HOMENAGEM E A POLÍTICA

Em Salvador, a Câmara Municipal aprovou a concessão do título de Cidadão de Salvador ao senador, por meio da Resolução nº 3.592/2026. A entrega da honraria foi programada para coincidir com um ato político de apoiadores de Flávio Bolsonaro, no Farol da Barra, mas a cerimônia acabou sendo adiada por decisão judicial, conforme noticiado.

Na justificativa apresentada, foi destacada a atuação do senador em temas como segurança pública e desenvolvimento econômico, além de sua contribuição para o fortalecimento de valores democráticos, institucionais e sociais. Não se pode negar que são temas importantes para qualquer cidade brasileira. A questão, porém, é outra: de que maneira essa atuação se traduziu em benefícios concretos para Salvador? Quais ações específicas justificam o reconhecimento concedido pela capital baiana?

Fazer essas perguntas não significa negar a importância do trabalho parlamentar nem desconsiderar as posições políticas do homenageado. Significa apenas defender que uma honraria pública precisa ter uma razão que vá além da identificação ideológica entre quem propõe e quem recebe.

FEIRA DE SANTANA: QUAL É A CONTRIBUIÇÃO PARA A CIDADE?

Em Feira de Santana, o vereador Ismael Bastos (PL) também apresentou um projeto para conceder o título de Cidadão Feirense a Flávio Bolsonaro. Ao defender a proposta, o vereador argumentou que a atuação do senador em favor do endurecimento das penas para determinados crimes pode beneficiar os moradores do município, que enfrentam sérios desafios na área da segurança pública.

Entre os exemplos citados pelo edil estão o fim das saídas temporárias de presos e o aumento das penas para crimes como o furto de celulares. Na avaliação de Bastos, medidas dessa natureza seriam especialmente relevantes para Feira de Santana, que possui um presídio e convive com problemas de violência.

É legítimo que o vereador valorize propostas legislativas nas quais acredita. Também é compreensível que a segurança pública esteja entre as preocupações de quem vive em Feira de Santana, assim como é compreensível que a segurança pública esteja entre as preocupações de quem vive em Feira, ou qualquer cidade do Brasil, pois toda família, todo indivíduo quer sair de casa e ter a tranquilidade de voltar em segurança. No entanto, existe uma diferença descomunal entre defender uma ideia e ser capaz de demonstrar que alguém prestou serviços relevantes a uma cidade.

Uma proposta legislativa de alcance nacional pode produzir efeitos positivos para milhares de municípios, mas isso, por si só, não explica por que determinada pessoa deve receber um título de cidadania em um deles. Se esse critério for suficiente, corre-se o risco de transformar uma honraria que deveria ser especial em uma espécie de reconhecimento automático a parlamentares que defendem pautas populares ou alinhadas aos seus proponentes.

A HOMENAGEM PRECISA IR ALÉM DA DISPUTA POLÍTICA

É importante deixar claro: o problema não está em homenagear um político, muito menos em sua posição ideológica. Parlamentares de direita, de esquerda ou de qualquer outra corrente política podem, sim, merecer o reconhecimento de uma cidade, desde que observados os serviços prestados ao município e que fazem jus à concessão da honraria.

Uma cidade pode reconhecer alguém que ajudou a construir uma escola, contribuiu para melhorar o atendimento à saúde, incentivou a cultura, fortaleceu o esporte, apoiou a ciência ou participou de iniciativas que transformaram a vida de seus moradores. Também pode homenagear quem, por meio de sua atuação pública, tenha contribuído de maneira efetiva para o desenvolvimento local, sem que a proximidade partidária seja o principal argumento para conceder a honraria.

Enquanto nomes conhecidos da política nacional recebem espaço nas discussões sobre títulos de cidadania, há professores, profissionais de saúde, artistas, pesquisadores, atletas, lideranças comunitárias e tantas outras pessoas que dedicam anos de suas vidas a melhorar a realidade de suas comunidades, muitas vezes longe dos holofotes e sem qualquer influência nos espaços de poder. Essas pessoas também merecem ser lembradas e, talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro sentido de uma homenagem pública: reconhecer quem fez a diferença, mesmo quando seu trabalho não rende manchetes nem votos.

A CIDADE ESTÁ ACIMA DOS INTERESSES PARTIDÁRIOS

Salvador e Feira de Santana têm histórias, identidades e populações que precisam ser respeitadas, e seus títulos de cidadania não pertencem a um partido, a um grupo político ou a um mandato. São honrarias concedidas em nome das cidades e, portanto, devem representar os interesses e os valores de suas comunidades.

Obviamente que não se trata de impedir vereadores de apresentar propostas ou de questionar o direito de cada parlamentar defender suas convicções. Trata-se de cobrar responsabilidade e critérios claros na utilização de um reconhecimento que deveria carregar significado para quem o concede e para quem o recebe.

Antes de votar uma homenagem, independentemente do nome ou do partido do indicado, talvez os vereadores devessem responder a cada cidadão daquele município uma pergunta básica: o que essa pessoa fez, concretamente, pela nossa cidade para merecer esse reconhecimento? Se a resposta estiver sustentada em ações, resultados e contribuições reais, a homenagem terá fundamento; se depender apenas de afinidades políticas será necessário refletir se o interesse público está realmente em primeiro lugar.

Afinal, receber o título de cidadão de uma cidade deveria significar mais do que compartilhar ideias com quem ocupa uma cadeira no Legislativo. Deveria representar uma ligação construída por meio de contribuições que justificassem o reconhecimento da população.

Quando a política se sobrepõe a esse propósito, perde-se não apenas o significado da honraria, mas também a credibilidade da instituição que a concede e a confiança de uma sociedade que espera de seus representantes responsabilidade na defesa do interesse público. Isso porque uma cidade não homenageia apenas uma pessoa: ela também revela, por meio de suas escolhas, os valores que considera dignos de reconhecimento.

FSA–BA, 27/10/2026

*Por Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias.

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