Com oito em cada dez lares endividados em Salvador, despesas urgentes durante o luto reforçam a importância do planejamento familiar
A morte inesperada de um familiar provoca consequências que ultrapassam a dimensão emocional. Enquanto tenta assimilar a perda, a família precisa tomar, em poucas horas, decisões sobre velório, traslado, urna funerária, sepultamento ou cremação, documentação e outros procedimentos. Sem planejamento prévio, essas despesas podem comprometer o orçamento doméstico e até levar à contratação de empréstimos ou ao uso emergencial do cartão de crédito.
O alerta ganha relevância diante da situação financeira das famílias. Em Salvador, 77,3% dos lares possuíam algum tipo de dívida em julho de 2026, o equivalente a 787.268 famílias, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da Fecomércio-BA. O levantamento mostra ainda que 245 mil famílias estavam com contas em atraso. Entre aquelas com renda de até dez salários mínimos, o endividamento chegava a 79,8% — praticamente oito em cada dez. Nesse contexto, uma despesa elevada, urgente e não prevista pode aprofundar dificuldades financeiras já existentes.
Segundo Eduardo Fernandes, gestor de projetos do Campo Santo Familiar (CSF), a falta de organização prévia aumenta a sobrecarga enfrentada pelos parentes. “Quando não existe planejamento, a família precisa resolver tudo de uma só vez, sem tempo para pesquisar, comparar ou se preparar financeiramente. Além da dor da perda, surge a preocupação com despesas que não estavam previstas no orçamento”, explica.
A situação pode ser ainda mais delicada quando a pessoa falecida contribuía significativamente para a renda familiar. Além dos custos imediatos da despedida, os parentes precisam reorganizar as despesas da casa, identificar contas, localizar documentos e verificar a existência de seguros, benefícios ou auxílios. “Planejar não significa antecipar o sofrimento, mas proteger quem fica. Conversar sobre o assunto, manter documentos organizados e definir previamente como as despesas serão cobertas evita que decisões importantes sejam tomadas apenas sob o impacto emocional”, afirma Eduardo Fernandes.
A experiência do Campo Santo Familiar mostra que muitas pessoas só conhecem a quantidade de procedimentos envolvidos quando a morte acontece. Por isso, o planejamento funerário pode ser tratado como parte da organização financeira da família, ao lado da reserva de emergência, do seguro de vida e da atualização de documentos. A orientação é avaliar cuidadosamente os serviços contratados, as condições de cobertura, os prazos de carência e as necessidades reais de cada núcleo familiar.
Como exemplo de uma abordagem mais ampla, o CSF associa a assistência funerária a um cartão de benefícios que pode ser utilizado pelos integrantes ainda em vida. A iniciativa busca aproximar o planejamento funerário da rotina familiar, oferecendo vantagens em serviços parceiros sem restringir a relação com o usuário ao momento da perda. “Quando o planejamento também oferece utilidade no presente, o tema deixa de ser visto exclusivamente sob a perspectiva da morte e passa a representar cuidado contínuo com a família”, observa o gestor.
Para Eduardo Fernandes, a principal mudança necessária é cultural. “Ainda existe resistência em conversar sobre a morte, mas o silêncio não impede que ela aconteça. Quando a família se organiza com antecedência, consegue preservar o orçamento e, principalmente, viver a despedida com menos preocupações práticas e mais espaço para o acolhimento”, conclui.
Fonte: Assessora de Imprensa: Carla Santana.



