
Entre o trago do cigarro e o feitiço das ruas, Ademar Santos Nunes desafia o tempo, a boemia e a própria morte no coração da cidade
O mito vivo que ignorou o próprio fim
Se pelas calçadas ensolaradas de Feira de Santana alguém ousar procurar por Ademar Santos Nunes, colherá das gentes apenas o silêncio do desconhecimento. Mas basta sussurrar o nome “Kitute” para que o coração da Princesa do Sertão se abra em sorrisos, revelando a mística dessa figura popular de 60 anos que fez do asfalto a sua poesia e da Favela do Horto o seu teto de memórias. Com passos vagarosos e olhar que tudo enxerga através das lentes invisíveis do tempo, ele perambula por ruas, praças e becos, tecendo o cotidiano e apurando diariamente os trocados sagrados que sustentam suas pequenas grandes felicidades: a cerveja gelada para afogar as futilidades do mundo, o cigarro tragado com a cadência de quem saboreia a própria liberdade e a persistente fezinha no jogo do bicho, onde deposita a esperança miúda de quem sabe que a sorte é só uma decolagem do destino.
A sua imortalidade, contudo, não reside apenas na presença cativante que molda a identidade urbana feirense, mas na própria audácia de ter driblado a finitude inventada pelos homens. Há alguns anos, quando a caneta apressada de um jornalista local anunciou sua partida deste plano, o centro da cidade vestiu-se de luto breve, logo rasgado pela surpresa irônica e festiva de vê-lo reaparecer caminhando, lépido e debochado, em carne, osso e espírito. “Quem morreu é quem me matou”, sentenciou Kitute com a sabedoria perspicaz das ruas, transformando o erro midiático em uma lenda viva que ecoa pelos comércios e esquinas, provando que certas almas são tão intrínsecas ao chão que pisam que nem mesmo a morte se atreve a levá-las antes da hora.



