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Feira de Santana
sábado, 12 setembro, 26
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FILHA DE EVA

FILHA DE EVA

Disseram que foi uma maçã.

Eu digo:
foi uma pergunta.

Disseram que Eva pecou
porque quis provar
do que não lhe era permitido.

Eu digo:
ela teve coragem
de não aceitar
um mundo explicado por outros.

E talvez seja por isso
que ainda tentem nos ensinar
que mulher boa não pergunta,
não contesta,
não atravessa o limite,
não morde o fruto
que colocaram diante dos olhos.

Mas eu sou filha de Eva.

E se me derem uma árvore,
eu vou querer saber
quem plantou,
quem cercou,
quem disse que o fruto era proibido
e, principalmente,
quem lucra
com a minha ignorância.

Eu escolho o conhecimento.

Mesmo quando ele dói.
Mesmo quando ele desmonta
as verdades que me ensinaram.

Prefiro a ferida
de quem descobre
à paz fabricada
de quem obedece sem saber.

Porque conhecimento
não é pecado.

Pecado é querer
um povo ajoelhado,
uma mulher calada,
uma criança sem perguntas,
um corpo sem memória,
uma história escrita
sempre pela mão de quem venceu.

Eu mordo o fruto.

Mordo a dúvida.
Mordo a palavra.
Mordo o silêncio.

E cada pedaço que descubro
me devolve um pouco de mim.

Se ser filha de Eva
é carregar a marca
daquela que ousou saber,

então eu carrego.

Sem culpa.

Com os dentes à mostra.

Porque entre o paraíso
da obediência
e a liberdade
de conhecer,

eu escolho o conhecimento.

E que ninguém mais me peça
para chamar de pecado
a minha fome de mundo.

Por Laizza Carvalho

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