FILHA DE EVA
Disseram que foi uma maçã.
Eu digo:
foi uma pergunta.
Disseram que Eva pecou
porque quis provar
do que não lhe era permitido.
Eu digo:
ela teve coragem
de não aceitar
um mundo explicado por outros.
E talvez seja por isso
que ainda tentem nos ensinar
que mulher boa não pergunta,
não contesta,
não atravessa o limite,
não morde o fruto
que colocaram diante dos olhos.
Mas eu sou filha de Eva.
E se me derem uma árvore,
eu vou querer saber
quem plantou,
quem cercou,
quem disse que o fruto era proibido
e, principalmente,
quem lucra
com a minha ignorância.
Eu escolho o conhecimento.
Mesmo quando ele dói.
Mesmo quando ele desmonta
as verdades que me ensinaram.
Prefiro a ferida
de quem descobre
à paz fabricada
de quem obedece sem saber.
Porque conhecimento
não é pecado.
Pecado é querer
um povo ajoelhado,
uma mulher calada,
uma criança sem perguntas,
um corpo sem memória,
uma história escrita
sempre pela mão de quem venceu.
Eu mordo o fruto.
Mordo a dúvida.
Mordo a palavra.
Mordo o silêncio.
E cada pedaço que descubro
me devolve um pouco de mim.
Se ser filha de Eva
é carregar a marca
daquela que ousou saber,
então eu carrego.
Sem culpa.
Com os dentes à mostra.
Porque entre o paraíso
da obediência
e a liberdade
de conhecer,
eu escolho o conhecimento.
E que ninguém mais me peça
para chamar de pecado
a minha fome de mundo.
Por Laizza Carvalho


