Flagrei
Em meio ao fluxo frenético do centro de Feira de Santana, gestos de afeto direcionados a figuras inanimadas revelam as nuances da vulnerabilidade urbana.
O contraste na paisagem urbana
Sentado sobre o piso tátil da Avenida Presidente Getúlio Vargas, em Feira de Santana, um homem de boné azul e vestes simples protagoniza uma cena que interrompe o ritmo apressado dos pedestres feirenses. Com o corpo inclinado e as mãos em posição de súplica ou diálogo, ele direciona um beijo a um outdoor publicitário. A imagem na parede, uma ilustração estilizada de uma mulher sorridente, contrasta o mundo perfeito e colorido do marketing com a realidade crua de quem habita as calçadas do maior centro comercial do interior baiano.
Para quem passa, a cena pode parecer apenas mais um fragmento do cotidiano invisível das ruas, mas ela carrega uma carga simbólica profunda sobre a necessidade humana de conexão. Em um ponto da cidade onde o concreto domina e o tempo é dinheiro, a busca por um interlocutor — ainda que bidimensional — expõe o abismo da solidão de quem vive à margem. O registro captura o exato momento em que a fantasia se torna o único refúgio possível contra a dureza do asfalto quente da Princesa do Sertão.
Foto: Luiz Tito



