*Por Professor Carlos Alberto
A Copa do Mundo de 2026 representa um marco histórico no futebol mundial. Pela primeira vez, o torneio foi disputado com 48 seleções, substituindo o formato tradicional de 32 equipes utilizado desde 1998. Além disso, a competição foi sediada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México, tornando-se a maior Copa da história em número de participantes, jogos e cidades-sede.
A ampliação do torneio foi apresentada pela FIFA como uma forma de democratizar o acesso ao Mundial, permitindo que mais países, especialmente da África, Ásia, Concacaf e Oceania, disputassem a principal competição do futebol. A medida ampliou a representatividade do torneio, valorizou o desenvolvimento do esporte em diferentes continentes e proporcionou maior diversidade de estilos de jogo, culturas e torcidas.
Por outro lado, o novo formato também gerou debates. Alguns especialistas apontaram que o aumento para 48 equipes poderia reduzir o nível técnico de parte dos confrontos da fase inicial e ampliar o desgaste físico dos atletas. Em contrapartida, a fase eliminatória com 32 seleções aumentou a competitividade, proporcionando mais partidas decisivas e mantendo o interesse do público ao longo de todo o torneio.
Entretanto, nem tudo ficou restrito ao espetáculo esportivo. A Copa do Mundo de 2026 também foi marcada por episódios de racismo e discriminação, tanto nos estádios quanto nas redes sociais. Casos de insultos dirigidos a jogadores e torcedores reforçaram que essa continua sendo uma das maiores chagas do futebol mundial.
Matéria publicada pelo Brasil de Fato, em 18 de julho de 2026, informa que o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) no Brasil solicitou à ONU e à FIFA uma atuação conjunta contra o que classificou como um “padrão transnacional de racismo” durante a Copa. Entre os casos citados está o do atacante francês Kylian Mbappé, alvo de ataques racistas de autoridades públicas, como a senadora paraguaia Celeste Amarilla e o ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy.
Segundo o CNDH, dados do Sistema de Monitoramento da FIFA apontaram que, apenas na primeira fase do torneio, cerca de 89 mil das mais de seis milhões de mensagens analisadas continham conteúdo abusivo, sendo 11% delas de caráter racista – um aumento de 33% em relação ao mesmo período da Copa de 2022.
A Copa também marcou a aplicação da chamada Lei Vini Jr., mecanismo criado para reforçar o combate ao racismo dentro de campo. Ainda assim, os episódios registrados demonstraram que campanhas educativas e punições mais severas continuam sendo indispensáveis. Em termos econômicos, a competição movimentou bilhões de dólares por meio dos direitos de transmissão, turismo, patrocínios e venda de ingressos, consolidando a Copa do Mundo como o maior evento esportivo do planeta.
É justamente nesse ponto que surge uma reflexão. A inclusão de mais seleções foi um avanço esportivo inegável. Contudo, é difícil acreditar que essa tenha sido a principal motivação da FIFA. Os números sugerem que a expansão esteve fortemente associada ao fortalecimento financeiro da entidade e de toda a indústria que gira em torno do futebol.
Com mais seleções vieram mais partidas, maior audiência, novos contratos de transmissão, mais espaços publicitários e receitas recordes. O Mundial de 2026 tornou-se o mais lucrativo da história da FIFA, consolidando o futebol como um dos maiores negócios do entretenimento global.
Outro aspecto que merece atenção é a expansão das apostas esportivas. As chamadas bets assumiram protagonismo inédito, patrocinando clubes, campeonatos, emissoras e plataformas digitais. Com mais jogos, multiplicaram-se também as oportunidades de apostas.
Em artigo intitulado A Copa das Bets, publicado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em 17 de julho de 2026, o economista Flávio Ataliba informa que, entre janeiro e abril deste ano, as plataformas de apostas movimentaram R$ 12,2 bilhões no Brasil – o dobro do registrado no mesmo período de 2025. Durante o Mundial, cerca de 35% dos brasileiros realizaram pelo menos uma aposta, com valores médios que ultrapassaram R$ 500 em jogos da Seleção Brasileira.
Como observa Ataliba, “o Brasil parece dividido entre duas paixões nacionais: uma continua sendo o futebol; a outra, cada vez mais presente, é apostar no futebol”. A afirmação sintetiza uma realidade que extrapola o país e alcança praticamente todos os mercados consumidores da Copa.
Nesse contexto, é legítimo perguntar: até que ponto a ampliação do Mundial buscou, de fato, incluir mais países e até que ponto serviu para ampliar mercados, fortalecer patrocinadores e potencializar receitas?
Não se trata de negar os benefícios esportivos da mudança. A presença de novas seleções enriqueceu a competição e aproximou diferentes culturas. Contudo, inclusão e rentabilidade não são conceitos excludentes. O problema surge quando o discurso da inclusão acaba ocultando interesses econômicos muito mais amplos.
Quiçá, a maior inclusão promovida pela Copa de 2026 não tenha sido apenas a de novas seleções, mas também a de novos patrocinadores, novos mercados consumidores, mais publicidade e uma presença ainda maior da indústria das apostas no principal espetáculo do futebol mundial.
A Copa do Mundo de 2026 inaugurou uma nova era para o futebol. Esportivamente, fortaleceu o caráter global da competição; socialmente, evidenciou que o racismo continua exigindo respostas firmes; economicamente, confirmou que o futebol se consolidou como uma poderosa indústria mundial.
Ante o exposto, o sucesso da Copa não deve ser medido apenas pelo número de participantes, pela qualidade técnica das partidas ou pelos recordes financeiros alcançados. Seu verdadeiro legado dependerá da capacidade de conciliar crescimento econômico com responsabilidade social, preservando a essência do esporte como instrumento de inclusão, respeito e igualdade. Afinal, o futebol continuará sendo o esporte mais popular do planeta não pelo dinheiro que movimenta, mas pela capacidade de unir povos, despertar paixões e inspirar valores que nenhum balanço financeiro consegue mensurar.
Encerrada a competição, fica o registro da conquista da Espanha, campeã da Copa do Mundo da FIFA de 2026 ao derrotar a Argentina por 1 a 0, na prorrogação, com gol de Ferran Torres. O segundo título mundial da seleção espanhola encerra um Mundial histórico, não apenas pelos acontecimentos dentro de campo, mas também pelos importantes debates que suscitou sobre inclusão, racismo, interesses econômicos e o futuro do futebol.
FSA-BA, 21 de julho de 2026.
*Por Carlos Alberto – Professor, radialista e mestre de cerimônias.


