Por Professor Carlos Alberto
A operação Carbono Oculto, iniciada em agosto recente na área da Faria Lima, em São Paulo, revelou mais do que um esquema complexo de delitos financeiros. Mais uma vez, evidenciou a inconsistência do discurso moral de uma parte significativa da direita brasileira no que diz respeito ao combate ao crime.
Considerada a maior operação já realizada no país para combater a infiltração do crime organizado em estruturas econômicas formais, a ação afetou empresários, operadores de mercado e intermediários de alto poder aquisitivo. Mesmo assim, o silêncio ou a tentativa de relativização dos setores conservadores foi bastante expressivo, ou seja, é perceptível que quando o crime usa terno e transita entre bancos e fundos de investimento, a situação muda.
A diferença se torna ainda mais clara ao analisar a postura da oposição no Congresso Nacional, particularmente do Partido Liberal (PL), que mobiliza esforços – políticos e judiciais – contínuos para proteger a qualquer custo o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro. A perseguição política é frequentemente alegada em relação a investigações, denúncias e decisões judiciais, ao passo que crimes de colarinho branco são abordados com explicações técnicas, cautela no discurso e solicitações de “respeito às garantias”.
É lamentável notar que esse mesmo campo político defende veementemente a ideia de que a esquerda “defende bandidos”. Para a direita brasileira, direitos humanos, garantias constitucionais e políticas de ressocialização, como exemplo, são retratados de forma exagerada como cumplicidade com o crime; ao passo que a realidade mostra que muitos dos que drenam recursos públicos, manipulam mercados e corroem a confiança institucional não estão nas periferias, mas nos andares altos do poder econômico e político deste país.
O caso mais recente envolvendo o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), Rodrigo Bacellar (UB), é representativo, mostra que as investigações que atingem o auge do Legislativo fluminense corroboram com uma realidade desconfortável: o crime organizado não se restringe a áreas marginalizadas, mas também está infiltrado – e muito bem infiltrado – em gabinetes, contratos públicos e instituições oficiais do Estado. Mesmo assim, a resposta de alguns setores da direita tende a ser defensiva, caracterizada por solidariedade política e alegações vagas de abusos por parte do Poder Judiciário.
O discurso punitivista evidencia essa seletividade, pois quando se trata de jovens pobres ou moradores de comunidades, a diretriz é a de “tolerância zero”. Por outro lado, quando os investigados fazem parte das elites econômicas ou têm ligações com partidos conservadores, aparecem, no mínimo, os apelos à presunção de inocência e às garantias legais.
Ao persistir em acusar a esquerda de defender criminosos, ao mesmo tempo em que minimiza os crimes de colarinho branco, uma parte da direita – senão toda ela – demonstra menos dedicação à justiça e mais interesse em um projeto de poder. Dessa forma, a moral seletiva empobrece o debate público e mina a credibilidade de qualquer discurso sério sobre segurança e legalidade.
Enquanto nos aproximamos do final deste escrito é possível inferir que se há algo que a operação na Faria Lima, assim como outros acontecimentos policiais recentes neste país evidenciam, é que o desafio no Brasil não é a ausência de um discurso contra o crime, mas a determinação de quem pode ser considerado criminoso. É possível dizer ainda que o combate à criminalidade não deve ser refém de interesses ideológicos, tampouco seletivos e de acordo com o status social dos investigados.
Em suma, o discurso da moralidade permanecerá vazio se essa contradição não for abordada; até porque combater o crime requer, no mínimo consistência, mesmo quando os suspeitos estão de gravata, circulando pela Faria Lima ou ocupando posições estratégicas nos governos. Caso contrário, a retórica punitivista da direita brasileira, sobretudo, nos últimos tempos, continuará sendo apenas isso mesmo: RETÓRICA.
FSA-BA, 16 de dezembro de 2025.
+ Carlos Alberto: professor, radialista e mestre de cerimônias








