*Por Professor Carlos Alberto
Na tarde desta terça-feira, 9, o Brasil presenciou mais um episódio lamentável na história política recente. Como amplamente divulgado, o deputado Glauber Braga (Psol–RJ) ocupou a cadeira da Presidência da Câmara dos Deputados, conduzindo a sessão e chamando outros parlamentares para discursar, afirmando que “não sairia mais” daquela cadeira.
A resposta explosiva do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos–PB), ao protesto de Glauber – que envolveu a retirada coercitiva, a interrupção da transmissão da TV Câmara e a pressa em encaminhar o processo que resultou na suspensão do mandato do parlamentar – diz menos sobre Glauber e muito mais sobre a forma como a Presidência da Casa tem exercido seu poder. Em outras palavras, evidencia algo visível a todos, mas admitido por poucos: a aplicação de punições no Legislativo não segue critérios institucionais uniformes, mas sim a conveniência política.
Ato contínuo, na noite desta quarta-feira, 10, dando continuidade à série de atos patéticos, a Câmara dos Deputados decidiu suspender, por seis meses, o deputado Glauber Braga, em um processo que pedia a cassação do mandato do parlamentar. Segundo noticiado, foram 318 votos a favor da suspensão, 141 votos contrários e 3 abstenções.
Quem acompanha minimamente a política brasileira sabe que Glauber desafiou a autoridade da Presidência ao assumir a cadeira principal do plenário no dia anterior, tendo Hugo Motta transformado o episódio em um grande ato de “defesa da instituição”. O problema é que, quando olhamos para outros casos que tramitam – ou foram simplesmente engavetados na Câmara -, essa narrativa perde sustentação.
Se a Mesa Diretora está de fato tão comprometida com o decoro parlamentar, por que optou por suspender rapidamente o mandato de Glauber, mas não adotou a mesma agilidade em relação a parlamentares como Carla Zambelli (PL-SP), presa na Itália e cujo mandato segue preservado mesmo diante de acusações graves? E mais, por que processos envolvendo Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive atualmente autoexilado nos EUA e enfrenta risco real de cassação por ataques às instituições, demoraram tanto para avançar?
A diferença entre Glauber e esses outros parlamentares parece ser simples – e profundamente política. Zambelli e Eduardo Bolsonaro integram grupos que Hugo Motta e a atual liderança da Câmara não desejam desafiar. Glauber, por sua vez, é oposição, é incômodo e não faz parte da estrutura de poder que sustenta a Mesa Diretora.
O episódio revela também outro aspecto: punições no Parlamento tornaram-se ferramentas de gestão política. Suspende-se quem é considerado “fácil” de punir; poupa-se quem representa votos, influência ou estabilidade interna. Assim, a atitude de Glauber expôs algo maior do que sua rebeldia: expôs que o “decoro” virou moeda de troca.
Enquanto a Presidência da Câmara continuar escolhendo criteriosamente quem deve ser julgado e quem deve ser protegido, o problema não será quem ocupa a cadeira do plenário, mas quem ocupa – de forma indevida – a credibilidade do Parlamento. A seletividade de Hugo Motta não é detalhe; é o centro da ‘crise’ institucional que a Câmara enfrenta.
Ou seja, quando o presidente distingue quem é punível e quem é intocável, ele demonstra que o regimento pode ser maleável, mas suas alianças não. E é justamente isso que o episódio evidencia: o problema não está necessariamente no que o parlamentar faz, mas em quem este ou esta desagrada.
E Glauber desagradou – não apenas pela ocupação da cadeira -, mas por anos de enfrentamentos contra forças que hoje moldam a Mesa Diretora. Já Zambelli e Eduardo Bolsonaro, além de Alexandre Ramagem (PL-RJ), foragido depois da condenação por crime contra o Estado Democrático de Direito, e é outro parlamentar que deve ser cassado, pertencem a blocos políticos que Hugo Motta considera estratégicos – seja para manter por perto, seja para evitar confrontar.
Atitudes como a do presidente da Câmara têm efeito corrosivo: criam a percepção de que a instituição opera sob um sistema de justiça seletiva, onde o discurso do decoro vale para alguns e é convenientemente flexibilizado para outros. Desta forma, nada enfraquece mais um Parlamento do que a ideia de que este age segundo conveniências, e não princípios; pois, se punições são instrumentos legítimos, que sejam aplicadas de forma uniforme – a todos e todas, indistintamente.
Por fim, a ‘crise’ envolvendo Glauber Braga não é apenas um caso de conflito momentâneo; é um espelho. E nele surge a pergunta que Hugo Motta – todo o parlamento – ainda não respondeu, e talvez não pretendam responder: *Afinal, quem protege a Câmara? E quem a Câmara decide proteger?*
FSA-BA, 11/12/2025.
*Carlos Alberto – professor, radialista e mestre de cerimônias.








