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“O meu trabalho é a minha dignidade”, afirma a única mulher a fazer fretes no Centro de Abastecimento

Dizem que a mulher é um sexo frágil, mas que mentira absurda, basta olhar para a feirense Rosemeire Miranda Quirino e logo esse paradigma é quebrado. Ela trabalha de gari e ainda encontra tempo, forças e coragem para fazer fretes no Centro de Abastecimento de Feira de Santana.

Com 56 anos e 58 quilos, Filé ou Boa, como é carinhosamente conhecida no Centro de Abastecimento e em toda a Feira de Santana, há 30 anos, todos os dias, das 4hs às 10hs da manhã, chova ou faça sol, faz diversas viagens conduzindo um carrinho de mão cheio de compras, ladeira do Centro de Abastecimento acima. À tarde / noite, sua tarefa é fazer a varrição das ruas do Centro de Feira de Santana. Essa última missão começa às 16hs e se estende até às 22h20. É o trabalho de gari que ela exerce há quatro anos. Oportunidade ofertada pelo prefeito Colbert Martins, a quem ela agradece.

“Ela tem força, ela tem sensibilidade, ela é guerreira. Ela é uma deusa, ela é mulher de verdade”, a frase está na letra da música, Ela vai voltar, de Charlie Brown JR, o saudoso Chorão e se aplica a nossa personagem, que já foi eleita por uma pesquisa popular, como a mulher mais trabalhadora e guerreira da Princesa do Sertão.

Utilizando um boné da Sustentare (empresa que faz a coleta de lixo de Feira de Santana), vestida com uma calça jeans, com camiseta coberta com um colete amarelo escrito: carregador 144 e calçada com um par tênis, Filé batalha fortemente para garantir a sua sobrevivência e não tem vergonha de mostrar as suas mãos cheias de calos.

“Já trabalhei vendendo pipocas, paçocas, picolés, doces. Já fui balconista e faxineira e hoje tenho orgulho em ser a única mulher a fazer fretes no Centro de Abastecimento e ter a oportunidade de trabalhar de gari. Quero ter condições de comprar e poder pagar, pois quem vende quer receber”.

Nascida em Itaju do Colônia, cidade do sul da Bahia e criada no Rio de Janeiro, essa feirense adotiva não carrega ódio ou rancor em seu coração, mas diz ter motivos. Apanhei muito do meu padrasto e também vi minha mãe apanhar. “Eu era muito sapeca, danada, gostava de brincar, ir à praia e faltava muitas aulas. Todos os dias tomava uma surra. A vida foi a minha escola e aprendi que o trabalho é a minha dignidade”.

Rosemeire diz que sabe ler e escrever, mas que tem pouco estudo. “Quem quer trabalhar consegue, afinal, trabalho tem, o que falta é empregos.

Filé tem orgulho em dizer que não pede nada a ninguém. Sempre que compro, pago. Procuro andar direito. Procuro cumprir tudo certinho. Tenho saúde e tenho que correr atrás dos meus sonhos. “De que adianta eu andar toda perfumada e devendo a Deus e ao mundo? Prefiro andar com as mãos cheias de calos, unhas dos pés e das mãos quebradas e as pernas cheias de varizes, mas com a minha dignidade e ser muito respeitada. Claro que tenho o meu momento de me perfumar e me maquiar. Eu me amo e me admiro muito”.

Aliás, esse respeito citado foi constatado durante essa entrevista realizada na Praça da Bandeira, a todos os momentos passava um condutor de um carro buzinando, batendo palmas para ela e gritando guerreira!

“Filé é uma pessoa muito especial, humilde, guerreira, batalhadora e que não se entrega. Ela merece todo o respeito da sociedade”, disse ao passar pelo local a cobradora de ônibus, Marilda Damasceno.

A Boa finalizou dizendo que não existe esse negócio de fome doer. “A fome dói para quem não quer trabalhar. Sou muito feliz trabalhando, Me acho maravilhosa e me amo muito”.

Texto: Luiz Tito

Fotos: Luiz Tito

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