A missão do repórter fotográfico no seu dia a dia, ao contrário do que muitos imaginam, é uma verdadeira guerra. São ameaças de mortes e surras, no intuito de intimidar e tentar evitar que o profissional possa exercer a sua função e revelar situações que estão obscuras aos olhares da sociedade.
Mesmo com todos os obstáculos que são peculiares á função (já passei por um número incontáveis), o prêmio de um fotojornalista é saber que foi através de uma reportagem (texto e foto) que a pauta em questão tenha sido resolvida.
Reportar através da fotografia é uma missão muitas vezes árdua e que requer perseverança, coragem, equilíbrio, determinação e muita ética. Escrever com a luz é mostrar a verdade nua e crua, doa a quem doer, porém, com muita responsabilidade e equilíbrio, afinal, uma grande imagem vale mais do que mil palavras e essa imagem tanto poderá promover ou derrubar uma pessoa.
Todos os sábado, o site digaìfeira.com.br estará publicando situações vivenciadas pelo repórter fotográfico Luiz Tito, ao longo dos seus 30 anos de fotojornalismo.
Hoje (22), com o tema Banquete no lixão, estaremos narrando uma inesquecível situação vivenciada no lixão de Eunápolis, extremo sul da Bahia.
Banquete no Lixão
Trabalhei na sucursal do Jornal A Tarde, em Eunápolis, extremo sul da Bahia, de 2000 a 2004. Após dois anos fora do Jornal, retornei a essa mesma cidade como freelancer para cobrir férias e licença materna da competente repórter fotográfica Renata. Após esse período fui recontratado e permaneci até 2016, trabalhando em outras sucursais.
Em Eunápolis fiz boas amizades, realizei exposições fotográficas coletivas, ganhei prêmios de fotojornalismo e ganhei um dos maiores prêmios da minha vida, foi em Eunápolis que Anna Luiza, minha amada filha nasceu.
Nesse período em que trabalhei nesta cidade de pessoas de energia muito positivas, tive a oportunidade de trocar conhecimentos com os companheiros Marlene Abade, Gledson Resende, Carla Fialho, Leticia Belém, Jesse Olympio e Duda Toralles. Juntos levamos o extremo sul baiano para o mundo. Divulgando os momentos trágicos com muitas lágrimas e os alegres com sorrisos e comemorações. Do luxo ao lixo, um misto de tudo.
E por falar em lixo, em Eunápolis, cumprimos inúmeras pautas no lixão desta cidade, localizada a 64 quilômetros de Porto Seguro e a 525 da capital baiana. Mas a cobertura que mais me emocionou foi a de uma incineração de carne apreendida por agentes da EBDA- Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola.
No mês de junho de 2002, eu e companheira Duda Toralles fizemos a cobertura de uma operação da EBDA, realizada na BR 101, que resultou na apreensão de toneladas de carne – não sei precisar a quantidade-, que estava sendo transportada de maneira irregular- não havia frigorífico no veículo.
Após a apreensão e os trâmites burocráticos, com o apoio da Polícia Militar, toda a carne foi transportada para o lixão, onde seria incinerada.
No local, dividindo o espaço com urubus, havia um grande número de badameiros, todos na expectativa de sobrar algum pedaço da tão vistosa carne para degustar e até mesmo matar a fome após um dia de batalha naquele submundo. No local, com meu equipamento fotográfico, ao lado da companheira Duda, esperava o momento certo para fazer uma grande imagem.
Por ironia do destino, os agentes esqueceram de levar a gasolina e uma equipe teve que ir ao centro da cidade em busca do combustível, permanecendo no local apenas dois policiais. Mesmo com a proximidade do centro da cidade, o grupo que saiu em busca da gasolina demorou a retornar. Foi aí que o bicho pegou.
O meu deadline estava estourando, e no intuito de fazer uma boa composição das imagens, pedi a um dos badameiros para segurar parte da carne jogada ao lixo, em meio aos urubus. Para minha surpresa, após esse “inocente” pedido, várias crianças, idosos, homens e mulheres pegaram enormes pedaços de carnes, jogaram em suas costas e saíram correndo lixão a fora.
Questionados aos gritos pelos dois policiais que apontavam suas armas para o alto e dando ordem para parar a ação, um homem disse “foi o negão que mandou a gente pegar. Esse negão ai que está fotografando”.
A cena causou um enorme desgaste com a diretoria do órgão fiscalizador, com os policiais e outras pessoas envolvidas na operação. As fotografias ilustram vários jornais e revistas do Brasil e do mundo e aquelas famílias comeram carne por um longo período.
Sensibilizado com a situação daquelas famílias, um mês após, reuni um grupo de fotógrafos de Eunápolis e coordenei uma mostra fotográfica com o tema: “Um dia sem fome. Nesse evento com a ajuda de vários empresários e amigos arrecadamos toneladas de alimentos, roupas e calçados para aquela comunidade.





